Cultura e pertencimento: como Bad Bunny, frevo em Cannes e BTS explicam um dos temas que podem cair no vestibular

Introdução

Em fevereiro de 2026, Bad Bunny subiu ao palco do Super Bowl, o maior evento esportivo dos Estados Unidos e um dos maiores palcos do entretenimento mundial. Fez o show inteiro em espanhol. Não traduziu nada. Não fez concessões à audiência americana. Cantou sua música, na sua língua, com referências à cultura porto-riquenha que muitos espectadores não reconheceram.

Algumas semanas depois, em Cannes, dançarinos de frevo subiram o tapete vermelho ao lado do elenco de “O Agente Secreto” na estreia do filme. O frevo, ritmo pernambucano que é Patrimônio Imaterial da UNESCO desde 2012, apareceu em um dos festivais de cinema mais prestigiados do mundo como forma de afirmar a identidade brasileira presente no filme.

E no álbum mais recente do BTS, o grupo sul-coreano mais famoso da história, entre faixas de pop contemporâneo, há um coral cantando Arirang, uma das canções mais simbólicas da Coreia, e uma faixa instrumental de 1 minuto e 37 segundos composta pelo som do Sino Sagrado do Grande Rei Seongdeok, Tesouro Nacional nº 29 do país, um bronze do século VIII.

Três momentos aparentemente desconexos. Três países diferentes. Três públicos diferentes. Mas uma ideia em comum: em um mundo que tende à homogeneização cultural, artistas globais estão usando suas plataformas para afirmar identidades locais.

E isso virou um dos temas mais cobrados nas redações de vestibular.

Se você está construindo seu repertório para ENEM, Fuvest ou Unicamp, entender esses três casos te dá argumento sofisticado, atual e aplicável em dezenas de redações possíveis sobre cultura, identidade, globalização, patrimônio imaterial e resistência simbólica. Este artigo explica cada um deles e mostra como transformá-los em argumento de redação.

O conceito por trás de tudo: cultura e pertencimento

Antes de entrar nos casos, vale entender o conceito central.

Cultura e pertencimento é a ideia de que a identidade cultural de um povo, uma comunidade ou uma região é parte essencial da sua humanidade. Valorizar essa cultura significa reconhecer que tradições, línguas, músicas, rituais e expressões artísticas não são apenas “entretenimento” ou “folclore”, mas formas legítimas de produzir conhecimento, história e significado.

Em um mundo globalizado, há uma tendência natural à homogeneização: o inglês domina a comunicação global, Hollywood domina o cinema, plataformas de streaming distribuem os mesmos conteúdos para todo o planeta. Isso tem vantagens (comunicação, acesso), mas também um custo: culturas locais e regionais podem ser diluídas, marginalizadas ou até desaparecer.

Quando artistas globais, com acesso a esses palcos gigantes, escolhem afirmar suas identidades locais em vez de se adaptarem ao padrão dominante, eles estão fazendo um ato de resistência cultural. Estão dizendo: “o meu lugar existe, a minha história importa, a minha língua merece ser ouvida”.

E é exatamente isso que aconteceu nos três casos que vamos ver agora.

Caso 1: Bad Bunny no Super Bowl 2026

O que aconteceu

O Super Bowl é o maior evento esportivo dos Estados Unidos e um dos maiores palcos de entretenimento do mundo. O show do intervalo é historicamente um momento em que artistas globais se apresentam para uma audiência de mais de 100 milhões de telespectadores.

Em fevereiro de 2026, Bad Bunny, artista porto-riquenho e um dos nomes mais ouvidos da música mundial, foi o headliner do show. E fez algo inédito naquele palco: cantou praticamente tudo em espanhol.

Não houve tradução. Não houve concessão ao público americano. Bad Bunny cantou suas músicas, na sua língua, com referências explícitas à cultura e à história de Porto Rico. Para quem não falava espanhol, restou a experiência sensorial da música e da performance, mas a mensagem era clara: essa é a minha cultura, essa é a minha língua, e eu não vou diminuí-la para caber no seu palco.

Por que isso importa

Porto Rico é um território dos Estados Unidos desde 1898, mas mantém uma relação politicamente complexa com o país. É um território não-incorporado, onde os habitantes são cidadãos americanos mas não podem votar para presidente. A relação entre cultura porto-riquenha e cultura americana sempre foi marcada por tensões, apagamentos e resistência.

E em todo o show, havia apenas uma frase em inglês: ‘The only thing more powerful than hate is love’ (a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor). Uma única frase, cuidadosamente escolhida, em um show inteiro. O gesto é ainda mais simbólico: ao falar em inglês apenas para dizer isso, Bad Bunny garantiu que a mensagem central chegasse a todos, sem abrir mão de cantar tudo o mais na sua própria língua. Foi afirmação identitária e comunicação global ao mesmo tempo

Temas para redação

Imperialismo cultural, dominação linguística, identidade porto-riquenha, colonialismo, resistência simbólica, direito à língua materna, representação cultural em mídia global, hegemonia do inglês.

Caso 2: Frevo em Cannes na estreia de “O Agente Secreto”

O que aconteceu

Cannes é um dos festivais de cinema mais prestigiados do mundo. O tapete vermelho do festival é historicamente um momento de glamour europeu, moda de alta costura, elenco internacional. É um espaço que, por padrão, reproduz uma estética específica e ocidental.

Quando o filme brasileiro “O Agente Secreto” estreou em Cannes, o elenco foi acompanhado por dançarinos de frevo que subiram o tapete vermelho dançando. Não foi uma apresentação discreta. Foi uma entrada coreografada, com a dança nordestina brasileira acontecendo ao lado das estrelas do filme.

Por que isso importa

O frevo é um ritmo e uma dança originários de Pernambuco, com raízes que misturam capoeira, marcha e polca. É reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade desde 2012. É uma expressão que nasceu nas ruas do Recife, nas festas populares, entre comunidades que não tinham acesso a palcos glamourosos como Cannes.

Levar o frevo para aquele tapete vermelho foi uma escolha ousada de publicidade e estética ao mesmo tempo. Uma cena que afirmou que o cinema brasileiro apresentado em Cannes não pretende se disfarçar de europeu, ele assume sua brasilidade, incluindo a regional e popular. Estética porque conectou duas linguagens aparentemente opostas (o cinema internacional e a dança popular nordestina) em um único gesto, provando que ambas podem ocupar o mesmo espaço com dignidade.

Temas para redação

Patrimônio imaterial, valorização de expressões culturais regionais, representação do Brasil no exterior, desigualdade cultural (centro-periferia, capital-interior), democratização da cultura, reconhecimento internacional de culturas populares, papel do Estado na preservação cultural.

Caso 3: BTS e as raízes coreanas

O que aconteceu

O BTS é o grupo sul-coreano mais bem-sucedido da história, um dos artistas mais ouvidos do mundo e um fenômeno global de K-pop. Conquistou o mundo cantando em coreano, o que por si só já é uma afirmação identitária: um grupo asiático cantando em sua própria língua e dominando paradas americanas e europeias historicamente fechadas para música não-anglófona.

No álbum mais recente, o grupo foi além. Logo na primeira faixa, há um coral cantando Arirang, uma das canções folclóricas mais simbólicas da Coreia, considerada praticamente um segundo hino nacional não-oficial. Arirang existe há séculos em várias versões regionais e é um símbolo de resistência, saudade e identidade coreana.

Mas tem mais. No álbum, há uma faixa instrumental de 1 minuto e 37 segundos composta por um único elemento sonoro: o som do Sino Sagrado do Grande Rei Seongdeok. Esse sino, fundido em bronze no ano de 771, é considerado o maior e mais antigo sino da Coreia. É Tesouro Nacional nº 29 do país, que originou o nome da faixa, um dos objetos mais importantes da história coreana, exposto no Museu Nacional de Gyeongju.

Por que isso importa

O BTS já é global. Já vendeu milhões de álbuns, já esgotou estádios no mundo todo, já falou na ONU. Não precisava reafirmar sua coreanidade para ser relevante. Mas escolheu fazer isso em um momento muito específico da trajetória do grupo.

Nos anos anteriores, o BTS vinha sendo criticado por uma suposta “americanização”. O grupo havia lançado uma série de músicas inteiramente em inglês, incluindo hits globais como “Dynamite”, “Butter” e “Permission to Dance”, que dominaram as paradas americanas. Para muitos fãs e críticos, parecia que o grupo estava abrindo mão de parte da sua identidade coreana para conquistar o mercado ocidental. A pergunta que circulava era: o BTS ainda é um grupo coreano ou já virou um produto global pasteurizado?

O álbum com Arirang e o Sino Sagrado foi uma resposta clara a essa crítica. Não foi coincidência. Foi posicionamento. Um grupo que tinha acabado de lançar seus maiores sucessos em inglês escolheu voltar às raízes mais profundas da cultura coreana: uma canção folclórica cantada há séculos e um objeto sagrado do século VIII. A mensagem era inequívoca: “Somos globais, sim. Mas antes de tudo, somos coreanos.”

Incluir Arirang é ensinar ao fã americano, brasileiro ou europeu que existe uma canção que atravessa séculos na memória coreana. Incluir o Sino Sagrado é colocar um tesouro de 1.254 anos no centro de um álbum pop contemporâneo, dizendo: “isso também é a Coreia, isso também faz parte de quem eu sou”.

Temas para redação

Preservação de patrimônio histórico, relação entre tradição e modernidade, indústria cultural e soft power, K-pop como fenômeno de globalização cultural reversa (a Coreia exportando sua cultura em vez de importar a ocidental), valorização de memória coletiva, papel da música na identidade nacional.

O que os três casos têm em comum

À primeira vista, Bad Bunny, o filme O Agente Secreto e BTS parecem desconexos. São artistas e situações completamente diferentes. Mas se você olha com atenção, percebe que os três estão fazendo a mesma coisa:

Estão afirmando identidades locais em palcos globais.

E estão fazendo isso justamente porque têm visibilidade global. É uma escolha consciente de usar o alcance que conquistaram para mostrar de onde vieram, em vez de se diluir no padrão dominante.

Bad Bunny poderia cantar em inglês no Super Bowl. O filme brasileiro poderia subir o tapete vermelho de Cannes sem dançarinos de frevo. O BTS poderia lançar um álbum sem referências ao folclore coreano, cantando apenas em inglês. Nenhum deles precisava fazer isso. Mas todos escolheram fazer, porque entendem que ter visibilidade sem afirmar identidade é abrir mão de uma das coisas mais valiosas que um artista pode fazer: mostrar ao mundo que lugares, povos e culturas que foram historicamente marginalizados têm algo a dizer.

Isso é cultura e pertencimento. Isso é o que o vestibular cobra.

Como usar esses casos em redação

Agora a parte prática. Como transformar esses três exemplos em argumento de redação?

Passo 1: Identifique o tema da redação. Cultura, identidade, globalização, patrimônio imaterial, representação, resistência cultural. Se o tema tocar em qualquer um desses eixos, os três casos funcionam.

Passo 2: Escolha o caso mais adequado. Não precisa usar os três. Use o que melhor se conecta com o tema específico. Se é sobre patrimônio imaterial, frevo em Cannes é mais direto. Se é sobre hegemonia linguística, Bad Bunny é mais forte. Se é sobre globalização e preservação cultural, BTS é mais interessante.

Passo 3: Apresente o caso de forma concreta. Não diga “artistas estão valorizando suas culturas”. Diga “em 2025, Bad Bunny realizou o show do intervalo do Super Bowl inteiro em espanhol, com referências à cultura porto-riquenha”. A especificidade gera autoridade.

Passo 4: Conecte com o conceito. Mostre como aquele caso específico ilustra o conceito maior que você quer defender. “Essa escolha ilustra como artistas globais estão utilizando suas plataformas para afirmar identidades historicamente marginalizadas, resistindo à homogeneização cultural imposta pela globalização.”

Passo 5: Amarre com o argumento da redação. Use o caso como evidência do que você está defendendo na sua tese.

Dica importante

Você não precisa ter visto o show do Super Bowl ou ouvido o álbum do BTS pessoalmente para usar esses exemplos. Precisa entender o que aconteceu, por que aconteceu e o que isso significa. Esse é o tipo de repertório que se constrói com informação, não necessariamente com consumo direto.

Conclusão: repertório está em todo lugar

Se você gostou desses exemplos, preste atenção: provavelmente você já consome algo que pode virar repertório sem saber. A música que toca no seu fone, o filme que você assistiu no fim de semana, a série que você está maratonando, a notícia que apareceu no seu feed. Tudo pode ser transformado em argumento para redação, se você souber olhar.

O segredo não é consumir mais. É consumir com atenção. É se perguntar: o que esse conteúdo diz sobre o mundo? Que ideias ele carrega? Como ele se conecta com os temas que estão em discussão agora?

Quando você desenvolve esse hábito, seu repertório deixa de ser uma lista de citações decoradas e passa a ser um conjunto de ideias vivas, conectadas com o que você está vivendo. É assim que se constrói uma redação autêntica, e é assim que se constrói alguém capaz de pensar criticamente sobre qualquer assunto.

Sobre o Colégio Objetivo Senador Fláquer

No Colégio Objetivo Senador Fláquer, acreditamos que repertório para vestibular não está só nos livros obrigatórios. Está na música que os alunos ouvem, nos filmes que assistem, nas notícias que leem e nas conversas que têm. Nossa preparação conecta conteúdo acadêmico com cultura contemporânea, atualidades e o universo real dos estudantes.

Porque redação nota mil não nasce de citações decoradas. Nasce de alguém que aprendeu a olhar para o mundo com profundidade e a reconhecer que tudo que acontece ao redor pode virar argumento, desde que você saiba enxergar.

Se você busca uma escola que entende a cultura dos seus alunos e prepara com conteúdo, método e conexão com a realidade contemporânea, conheça nossa proposta.

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