BookTok: como o TikTok está transformando a leitura entre jovens brasileiros

Introdução

Se você tem entre 14 e 18 anos e usa TikTok, a chance de já ter esbarrado com um vídeo de alguém chorando por causa de um livro é alta. Ou alguém montando uma estante colorida. Ou alguém contando o plot de um romance como quem faz fofoca.

Isso é o BookTok. E esse movimento, que começou como comunidade espontânea dentro do TikTok, já se tornou a maior força de transformação do mercado editorial brasileiro.

Em 2025, a hashtag #BookTokBrasil ultrapassou 3 bilhões de visualizações. O conteúdo literário na plataforma somou mais de 12 bilhões de views. As vendas de livros no Brasil cresceram quase 8% entre 2024 e 2025. E boa parte desse crescimento tem um nome: BookTok.

Mas o que isso tem a ver com o vestibular? Tudo.

O que é o BookTok

BookTok é a comunidade do TikTok organizada em torno de livros. Os criadores de conteúdo dessa comunidade, chamados BookTokers, compartilham resenhas rápidas, listas temáticas, reações emocionadas e o que ficou conhecido como “fofoca literária”: vídeos nos quais a trama de um livro é comentada de forma intrigante, quase como quem conta um segredo irresistível.

O formato funciona porque combina duas coisas que a Geração Z valoriza: autenticidade e emoção. Não é crítica literária tradicional. É uma pessoa real contando o que sentiu ao ler. E isso gera identificação.

De acordo com o estudo “BookTok Brasil e as novas experiências literárias”, do centro de pesquisa Reglab, o BookTok funciona como uma infraestrutura informal de descoberta literária. Usuários entram em contato com títulos de forma espontânea e não planejada, são estimulados a buscar mais informações sobre as obras e acabam se engajando na leitura.

Ou seja: o algoritmo do TikTok está fazendo o que campanhas publicitárias de editoras não conseguiam, colocando livros nas mãos de jovens que talvez nunca entrassem numa livraria por conta própria.

Os números que comprovam o fenômeno

O impacto do BookTok não é percepção. É dado.

A hashtag #BookTokBrasil ultrapassou 3 bilhões de visualizações em 2025. O conteúdo literário geral na plataforma somou mais de 12 bilhões de views no mesmo período. As vendas do varejo de livros no Brasil cresceram 7,8% entre 2024 e 2025, com 48 milhões de exemplares vendidos. Na Europa, a comunidade BookTok ajudou a vender mais de 50 milhões de livros em 2025, gerando cerca de 800 milhões de euros em receita.

A Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro em 2025 teve o TikTok Brasil como patrocinador master e recebeu mais de 740 mil visitantes. Editoras como Seguinte e Companhia das Letras já declararam que os livros mais vendidos em seus estandes foram resultado direto de recomendações do TikTok.

Vendedores de livrarias entrevistados pelo Reglab confirmam o impacto no dia a dia: quando um livro viraliza no BookTok, ele fica entre os mais vendidos ou esgota.

O BookTok ressuscita clássicos

Um dos achados mais surpreendentes do fenômeno é a capacidade do BookTok de trazer de volta livros que estavam esquecidos.

Machado de Assis voltou a figurar entre os mais vendidos depois que uma criadora de conteúdo americana elogiou suas obras no TikTok. Dom Casmurro ganhou uma hashtag própria. Noites Brancas, de Dostoiévski, voltou ao topo das vendas em livrarias visitadas pelo estudo do Reglab.

Isso significa que o BookTok não é só sobre romances contemporâneos e fantasia. Ele também funciona como porta de entrada para os clássicos, exatamente os livros que caem no vestibular.

Se Dom Casmurro viraliza no TikTok e o aluno resolve ler, ele está construindo repertório para a Fuvest sem nem perceber. Se Noites Brancas volta à conversa, o aluno está ampliando referências para redação. O entretenimento e a preparação estão se misturando de um jeito que nenhuma campanha publicitária planejou.

Como o BookTok constrói repertório sem você perceber

A competência 5 da redação do ENEM avalia a capacidade do candidato de demonstrar “repertório sociocultural” ao elaborar uma proposta de intervenção. Nos vestibulares da Fuvest e da Unicamp, a expectativa é parecida: o avaliador quer ver que o aluno consegue articular referências culturais com o tema proposto.

O BookTok faz exatamente isso, só que de forma invertida. Em vez de o aluno buscar referências para a prova, as referências chegam até ele pelo feed. E quando ele assiste a um vídeo sobre um livro que trata de desigualdade, identidade, saúde mental ou justiça social, ele está absorvendo repertório aplicável.

O problema é que a maioria dos alunos consome esse conteúdo no piloto automático. Assiste, gosta, esquece. A diferença entre quem só consome e quem transforma em repertório é uma camada de intenção: parar e pensar sobre o que aquela obra realmente ensina.

Quer transformar o que você consome no BookTok em argumento de prova? Use o método dos 4 passos:

  1. Assista com olhar crítico: sobre o que esse livro realmente fala?
  2. Identifique o tema central: desigualdade? Identidade? Saúde mental?
  3. Extraia o argumento: o que essa obra me fez entender sobre esse tema?
  4. Conecte com possíveis temas de redação: em quantas propostas diferentes esse argumento poderia ser usado?

Com o tempo, esse processo se torna automático. Você para de precisar de lista pronta e começa a enxergar repertório em tudo que consome.

Os limites do BookTok

O estudo do Reglab não é ingênuo. Ele também aponta riscos.

A lógica de trends e viralização pode concentrar a atenção em um número pequeno de títulos e gêneros, principalmente romance e fantasia. A crítica literária aprofundada perde espaço para a reação emocional. E existe o risco de que “parecer leitor” se torne mais importante do que realmente ler.

A hashtag #BookTokMadeMeCry é um dos formatos mais populares da comunidade. O sentimento é frequentemente mais valorizado do que a análise crítica. Isso não é um defeito, é uma característica do formato. Mas significa que o aluno que quer ir além precisa adicionar essa camada de análise por conta própria.

A boa notícia é que isso não é difícil. Basta ler com um pouco mais de atenção do que o vídeo de 30 segundos oferece.

Conclusão

O BookTok não é modinha. É o maior movimento de incentivo à leitura entre jovens que o Brasil já viu. E ele está acontecendo no celular que você já tem na mão.

Se você já faz parte dessa comunidade, continue. Mas adicione uma camada: em vez de só sentir o livro, pense sobre o que ele ensina. Identifique temas. Extraia argumentos. Guarde para a prova.

Se você ainda não faz parte, talvez esse seja o momento. A hashtag #BookTokBrasil está lá, com 3 bilhões de visualizações esperando você.

E nas férias de julho, em vez de rolar o feed sem destino, que tal abrir um livro que o TikTok te indicou?

Sobre o Colégio Frei Gaspar

No Colégio Objetivo Frei Gaspar, acreditamos que a leitura acontece onde o aluno está. Se o TikTok está levando jovens a descobrir livros, a gente acolhe esse movimento e ajuda a transformar entretenimento em repertório real. Nossos alunos aprendem a ler com olhar crítico, a construir argumentos com profundidade e a usar tudo que consomem como ferramenta de conhecimento. Aqui, cada aluno é visto pelo nome e pela forma única como aprende. Se você busca isso, a gente quer te conhecer.

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